Uma conversa com Marcelo Scipioni sobre árvores centenárias, pesquisa em campo, desafios no laboratório e memória ecológica
Aqui uma introdução: “As últimas gigantes ainda respiram”

Esta conversa nasceu da história contada na newsletter de aniversário da Natureza Karuna.
Nasceu, também, da queda de uma araucária gigante no sul do Paraná. Quando uma árvore dessa dimensão tomba, não cai apenas um tronco: vai ao chão o acúmulo de camadas de um tempo, de clima e de relações ecológicas que atravessaram séculos.
A partir desse acontecimento — de suas repercussões na criação da Natureza Karuna e de um post que alcançou quase um milhão de visualizações — sentimos a necessidade de compreender melhor essas árvores raras. Afinal:
- O que define uma araucária gigante?
- Quantos anos ela pode viver?
- O que elas revelam sobre as florestas originais?
- Por que são tão importantes para a biodiversidade, para o clima e para a memória do território?
Para isso, conversamos longamente com Marcelo Scipioni, engenheiro ambiental e agrônomo, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Curitibanos, e um dos principais pesquisadores de árvores gigantes do Brasil.
O que segue é uma entrevista profunda sobre essas sobreviventes, com alguém que tem dedicado sua vida à encontrá-las, decifrar as suas histórias e tornar esse conhecimento mais acessível.
Nota editorial
A entrevista abaixo preserva o sentido e a maior parte do conteúdo original da conversa entre o professor Marcelo Scipioni e a jornalista Amanda Arruda, com pequenos cortes e ajustes editoriais realizados exclusivamente para favorecer a fluidez da leitura. O encontro está disponível em vídeo no YouTube.
Natureza Karuna – O senhor se notabilizou pela catalogação e pesquisa das árvores gigantes, entre elas as araucárias, que são as nossas ícones, aqui no Sul. Poderia contar como começou esse trabalho de descoberta e mapeamento?
Marcelo Scipioni – Essas grandes árvores vieram de uma pesquisa anterior para entender as florestas originais. Como as grandes árvores são indicadoras de conservação, da longevidade, do tempo que elas estão no local, elas podem ser um indicador excelente para a questão de distúrbios. Se temos árvores gigantes, quer dizer que aquele local é mais preservado. Mas não necessariamente nesse aspecto, que a presença, às vezes, só de um indivíduo, às vezes, em torno dela, totalmente está desmatado.
Isso começou com uma pesquisa de mapeamento de grandes árvores da floresta original. Nessa busca, eu tive a oportunidade de visitar o Sequoia Park, nos Estados Unidos, e quando eu retornei ao Brasil dessa visita, em 2012, eu me perguntei onde estão as maiores araucárias, para linkar nessa pesquisa. Eu conhecia algumas, sabia que existiam indivíduos acima de dois metros de diâmetro porque visitei alguns quando era aluno de graduação.
Iniciei, então, a catalogação dessas grandes árvores num período de pós-doutorado na Universidade Federal de Santa Maria. E no período dessa pesquisa, escalando uma árvore, eu sofri um acidente. Caí de uma árvore menor, em treinamento, fraturei o braço e a pesquisa parou. Aí eu tive que refletir o que fazer, porque eu tinha que entregar um relatório de pesquisa e, infelizmente, este acidente acabou mudando um pouco a trajetória. Nisso veio, então, a ideia de tentar catalogar esses grandes indivíduos e buscar outros sítios com grandes árvores para reconhecer essas florestas.
Dessa pesquisa, em 2019, saíram artigos que condensaram esse trabalho, mas é uma pesquisa que vem de muito antes. Foram três artigos, um deles com o título As Últimas Araucárias Gigantes. Nesse trabalho consultei vários pesquisadores, entrei em contato com outras pessoas fora da área acadêmica, pessoal do setor florestal, empresas que poderiam indicar a localização dessas grandes árvores. E o processo foi bastante difícil no início, porque a gente não tinha noção da escala do tamanho dessas árvores.

FOTOS: Todos as imagens usadas nessa página foram cedidas pelo entrevistado.
Vinha muita informação de árvores com porte menor de um metro de Diâmetro à Altura do Peito (DAP) ou até menos, com 80, 70 centímetros de DAP. Algumas eu cheguei a ir em loco mensurá-las porque alguém dizia que tinha uma árvore gigante em tal lugar. Então veja como as pessoas não tinham conhecimento, achavam que essas árvores de um porte médio seriam gigantescas, seriam de grande porte.
NK – Como se chegou aos parâmetros mínimos de tamanho para determinar que se trata de uma araucária gigante?
MS – O divisor de águas no trabalho, para nós definirmos qual é o tamanho de uma árvore gigante foram os dados oficiais de inventários florestais feitos pelos Estados. Tive acesso aos dados do Rio Grande do Sul e ao inventário florestal florístico de Santa Catarina e o que me chamou a atenção foi que não havia registro de árvores compatíveis com o tamanho daquelas que eu vinha catalogando.
Nesses inventários, não existiam árvores acima de 1,5 metro de diâmetro (DAP). Então, foi o divisor de águas para nós darmos essa classificação para araucárias acima de 1,5m de diâmetro. Podemos chamá-las de gigantes, dentro de uma classe, de uma grande quantidade de dados – eram mais 3 mil árvores da espécie araucária que foram medidas nesses inventários.
NK – Essa referência do que são grandes árvores diz muito da importância desse trabalho porque hoje nós não temos noção do que é uma árvore gigante, porque elas se tornaram tão tão raras que a maioria de nós nunca teve contato com uma dessas araucárias gigantes. Então, o critério que define se uma árvore entra nessa lista das gigantes é o diâmetro do tronco, a partir de 1,5m, certo?
MS – O diâmetro é uma variável que qualquer pessoa consegue mensurar, por isso ela foi utilizada. Tem outras metodologias, o pessoal usa a projeção de copa, a altura da árvore, associa essas pontuações nessa categorização dessas árvores monumentais, mas eu preferi trabalhar com o diâmetro, por ser muito mais fácil. Nem todas as pessoas têm acesso a um hipsômetro para medir a altura da árvore. Ou mesmo, às vezes, fica subjetiva a mensuração da projeção de copa da árvore. Então, o diâmetro à altura do peito (1,30 metro do chão) é um parâmetro muito mais seguro e muito mais fácil de se obter.
As pessoas realmente não conhecem as gigantes, o pessoal do interior, às vezes, tem na sua propriedade um indivíduo, mas são poucos, poucos indivíduos que sobraram, muito poucos.Trazer isso à tona, mostra também a dimensão da ameaça à araucária. As pessoas veem muitos indivíduos de araucárias e muitas vezes me questionaram: “Mas professor, está cheio de árvores. Tem muita araucária”. Realmente, temos vários indivíduos de araucária, mas como era a floresta original? Qual é o porte dessas grandes árvores? Aí a gente consegue fazer uma reflexão de que realmente as maiores árvores foram as primeiras a serem cortadas e colhidas.

Isso é um alerta e chama a atenção de como a gente esqueceu da nossa história natural, de como era a nossa floresta original antes da ação do homem. Então, é uma ação importante tanto caracterizar a floresta original, comparando com as florestas secundárias, como também valorando esses indivíduos, que precisam ser preservados.
Às vezes essas árvores estão em áreas florestais, às vezes em áreas abertas ou isoladas, resistiram por algum motivo e devem ser preservadas, independente de estarem em áreas urbanas ou áreas rurais.
NK – Há várias estimativas em relação à idade das árvores gigantes. Como é essa correlação entre tamanho e idade, no caso das araucárias, e como se estima o tempo de vida desses indivíduos?
MS – As árvores registram a passagem do tempo no que a gente chama de anéis de crescimento. Então, há camadas claras e escuras, que refletem o período das estações. A camada escura é o período de inverno e outono, quando diminui o crescimento, as células ficam menores e as paredes de celular ficam mais espessas. E no período da primavera e verão, que ela retoma o crescimento, as células são maiores, a parede mais fina. Essa marcação, que a gente chama de dado proxy, que fica registrado na natureza. Essas informações do passado são a forma da gente datar e identificar a idade das árvores através dos anéis.
Contudo, nas grandes árvores de araucária, a gente vem trabalhando já há alguns anos e temos vários desafios, alguns já conseguimos superar. Uma das dificuldades é conseguir coletar a amostra em árvores com dois metros de diâmetro ou grandes dimensões. Então, o equipamento para coletar isso não é convencional. Temos trado de incremento, que é um equipamento que tem como se fosse uma sonda, uma broca, que perfura a árvore em meio milímetro (de diâmetro), e a gente consegue extrair essa amostra de madeira, fazer o polimento e trabalhar a contagem de anéis. Já nas situações em que as árvores caem, ou por ação da natureza, ou crimes ambientais, a gente consegue tirar discos para fazer o polimento e tentar fazer a contagem de anéis.


Quanto aos atributos de antiguidade das grandes árvores, de certa forma, podemos fazer uma analogia com a gente. Conforme ficamos mais velhos, o cabelo vai ficando branco, as rugas vão surgindo… as árvores também vão ter esses atributos de antiguidade e um deles é a presença de cavidades cavidades internas, formadas naturalmente pelo apodrecimento interno da madeira. Em muitas dessas cavidades em grandes árvores, você consegue entrar dentro, como se fosse uma caverna biológica. Aí já começa um desafio porque não há anéis completos. A partir de 1,50m já começa a presença de cavidades e isso dificulta medir a idade precisa, então a gente vai ter que fazer estimativas.
Outro desafio para a datação são as anomalias nos anéis de crescimento. As nossas árvores, crescendo em clima subtropical, mesmo com um inverno relativamente marcado, às vezes podem surgir algumas anomalias [devido às oscilações do clima], como não formar um anel pelo porte das árvores mais velhas ou mesmo formar muitos anéis em cunha. Então, os anéis se encontram, somem ou formam também falsos anéis. Isso é um desafio para a datação.
Há ainda o desafio de ter muitas árvores para datar e fazer o que a gente chama de cross dating. O trabalho é sobrepor os anéis de diferentes árvores de um mesmo local, uns sobre outros, para ter a mesma largura de anel na mesma data, no mesmo ano, e a gente confirmar que aquele é um anel verdadeiro. Então, são poucos sítios que nós temos com muitas árvores que a gente consegue ter as amostras necessárias. Um dos sítios recentes que a gente está trabalhando, é em Fraiburgo-SC, que fica aqui próximo de Curitibanos, no Parque René Frey. Nós coletamos tanto baguetas em árvores vivas , quanto discos em árvores que caíram por ação da natureza. Esse sítio tem muitas amostras, mas é o sítio mais difícil que eu tenho por causa dos anéis em cunha.

Por isso que nós estamos agora com um projeto de inteligência artificial para auxiliar nessas datações. E para auxiliar usaremos outra técnica complementar com araucária para modelagem de espessura de casca. Em razão dessas grandes árvores, nós agora temos amostras que são maiores que 11, 12, 13 centímetros de espessura. Isso me chamou a atenção, por esse material ser tão espesso. O que talvez seja uma característica que proteja a araucária para ela chegar a ter idades centenárias, multisseculares.
NK – Então, não é possível fazer uma correlação entre idade e tamanho de uma árvore?
MS – É difícil fazer uma estimativa de idade em árvores porque dependendo do ambiente que ela cresce, árvores do mesmo porte podem ter idades diferentes. Se crescer em solo profundo que possibilita o crescimento dela, ela vai ter anéis largos; já a árvore que cresceu em um ambiente sombreado no início da vida dela vai ter um comportamento diferente ou mesmo uma árvore que cresceu em cima de uma laje de rocha.
Eu tenho uma amostra no laboratório de uma árvore de 25 anos que cresceu em uma área urbana, sem competição, isolada, recebendo toda a radiação. Ela tem praticamente o mesmo tamanho de uma outra amostra que cresceu sobre uma laje de rocha e tem 90 anos. Então, veja como o ambiente influencia.
NK – Nesse caso, o método mais confiável para medir a idade de uma árvore viva seria a extração da bagueta através de um furinho que atravessa o tronco para, então, fazer a contagem dos anéis. Mas ainda assim pode ser difícil precisar a idade devido às cavidades, crescimento não homogêneo ou anéis não marcados, certo?
MS – Você vai ter uma estimativa melhor do que no olhômetro, olhando só. Até brinco com os alunos, que ignorar a contagem dos anéis seria como não olhar a carteira de identidade da árvore. Assim, pelo menos, tu tira a amostra e consegue contar.
Vai ter anéis falsos no meio? Com certeza vai ter um percentual de anéis falsos nessas árvores velhas. Como é se formam esses anéis falsos? Às vezes chega final de agosto ou até no meio de julho, aí tem uns veranicos, dá uma estimulada no crescimento da árvore, ela emite um anelzinho, que não é um anel verdadeiro. Então isso pode ser contabilizado e acaba superestimando também a idade das árvores. No nosso caso, é bastante desafiador essas árvores porque a gente precisa fazer o Cross-dating (datação cruzada). Então no ambiente tropical tudo é mais difícil do que no clima temperado, ou em clima mais estacional, que fica seis meses sem chover e marca muito bem os anéis.
NK – Professor, só para a gente explicar claramente, o Cross-dating é um cruzamento de dados de um grande número de representantes, para você ter uma ideia de uma média, é isso?
MS – Sim. O Cross-dating é uma datação cruzada. Dentro de uma árvore a gente já faz isso, não pega só uma amostra por árvore; É preciso várias amostras dessas araucárias gigantes, para poder tentar sincronizar os anéis dentro da árvore, para só depois tentar sincronizar com outras árvores próximas. Então é bastante trabalhoso. No nosso contexto, a gente está trabalhando com mais de 30 árvores.
Estamos tirando, para Araucária, já três amostras por árvores, e das gigantes a gente chega a tirar oito, conforme o porte delas. Nós estamos com trabalho para datação do pinheiro multissecular lá em Nova Petrópolis, no Rio Grande do Sul. Só tem uma árvore grande lá na floresta, ela é o atrativo. Nós coletamos árvores do entorno e tiramos algumas amostras dela, que é ocada, então a gente não consegue chegar até o núcleo, e estamos tentando um trabalho de dendroclimatologia, relacionando o clima e os anéis das árvores ali, nos últimos 50, 60 anos.

A gente conseguiu datar muito bem os últimos 60 anos, com amostras de 10 árvores. Mas nós coletamos amostras de 30 árvores, muitas delas acabaram não sincronizando os anéis. Pode ser porque uma árvore cresceu sombreada, teve um momento diferente das outras, então acaba sendo bastante difícil. É um quebra-cabeça em que nem todas as peças serão usadas para montá-lo. A gente tem um monte de peças e aí a vai encaixando, é muito trabalhoso. Coletar as amostras, preparar, é um trabalho rápido, mas depois, o pós-laboratório é bastante árduo.
NK – E de onde vem essas estimativas de idade divulgadas pelos municípios? Por exemplo, a araucária de Cruz Machado tem, segundo a prefeitura, mais de 750 anos. E várias outras cidades com árvores gigantes também estimam idades semelhantes.
MS – Essa de Cruz Machado, não sei, eu tenho certeza que não contaram os anéis, porque não vi ninguém tirando o disco, uma amostra. Após a queda, o próprio Ivar Wendling [pesquisador da Embrapa Floresta], que coletou material genético dessa árvore para fazer a clonagem, me perguntou: “Marcelo, foi você que fez a estimativa?”. Eu falei que não, à época que estava catalogando essas árvores, eu ainda não estava tirando amostras para dendrocronologia, então, infelizmente não coletei dessa árvore.
Isso são chutes. As pessoas acabam chutando essas informações. Eu mesmo já evito falar de idade. Quando eu dou alguma estimativa, posso falar, por exemplo, de 350 a 450 anos… Mas isso é um intervalo bem grande. Então, é complicado fazer a afirmação de uma idade exata, sem as amostras. Talvez não tenha tudo isso.
Eu tenho esperança que a araucária chegasse a mil anos. Nossa, seria incrível. Nós temos uma amostra de imbuia que somou 535 camadas de crescimento, o disco foi coletado porque foi um crime ambiental. Já foi uma coisa excepcional chegar a essa contagem. Coletamos outras amostras do entorno e estamos até hoje trabalhando junto com outros colaboradores, pesquisadores de outras instituições, tentando fazer o cross-dating dessas árvores para confirmar os anéis verdadeiros, porque a gente quer trabalhar também com outras linhas de pesquisa da dendrocronologia, dendroquímica, dendroclimatologia, em que a gente precisa ter a datação precisa dos anéis. Então é um trabalho que requer muito cuidado, muito.
Nós não medimos de forma aleatória a mensuração da largura dos anéis. A gente segue a questão microscópica da distribuição das células. Então, a gente não mede só a largura, mas olha numa lupa com aumento de 30 vezes, direcionando essa mensuração. O pessoal acha que é um trabalho simples, só saber idade. Mas a dendrocronologia é uma ciência já bem consolidada e é bem rigorosa nessas mensurações.
O cross-dating, a datação cruzada, é importantíssima para eliminar esses anéis falsos, confirmar, às vezes, até anéis ausentes. Porque às vezes, digamos, a árvore ali ficou um período sem o alimento dela, devido um período de seca, uma estiagem de um ano, aí não forma anéis. Ela não chega a morrer, mas também não cresce. Então, a gente consegue, às vezes, chegar a essas informações por um conjunto maior de dados de outras árvores, ao sincronizar essas informações.
NK – E para quem acredita que localizou um exemplar gigante, uma araucária que tem mais de um 1,5m de diâmetro à altura do peito – que foi lá e mediu – de que modo as pessoas podem comunicar isso?
MS – Eu mantenho um banco de dados online, o arvoresgigantes.org, como um trabalho à parte em que vou estruturando essa lista, porque é muito dinâmica. As pessoas me encaminham esses dados, lá no site tem um link com toda a metodologia explicando como medir o diâmetro à altura do peito na árvore, porque essas grandes árvores, às vezes, estão em terrenos declivosos aí surge a questão de em qual posição eu devo inserir? Por isso que a gente segue esse padrão de 1,30 metro acima do solo e é preciso observar esses detalhes. Lá no site eu coloco algumas imagens explicando isso aí.
Uma forma de confirmar também que eu solicito é uma fotografia de uma pessoa do lado dessa árvore, aí eu consigo só bater o olho e já consigo identificar que realmente é uma árvore de grande porte.



Quando a gente começou a caracterizar a floresta de crescimento antigo ou a floresta original, uma das perguntas que surgiu foi quantas árvores de grande porte, acima de dois metros de DAP, existiam por hectare? Seria apenas uma? Esses vestígios de informação, eles me mostraram previamente que não. Antigamente, as florestas tinham árvores de dois metros de DAP, uma próxima da outra. Então, o que nós vamos hoje são pequenas árvores, de 15 metros, 20 metros de altura, que regeneraram e que não representam a floresta original. Então, a gente fez uma exploração muito intensa das nossas florestas. As árvores gigantes, praticamente nem estão no radar dos inventários florestais.
NK – No post que a gente fez, baseado no seu trabalho, surgiram muitos comentários, dúvidas, mas também pessoas contestando esse número de 46 árvores gigantes de araucárias mapeadas. Elas argumentam: “Não pode, existem muitas árvores na minha região”. Como a gente pode explicar isso de uma maneira didática? Que o fato das pessoas enxergarem árvores que elas consideram muito grandes, não significa que o bioma não esteja ameaçado, nem mesmo que esta seja uma árvore gigante.
MS – Uma coisa é uma publicação científica, nós publicamos um artigo em 2019, se não me engano, e eram em torno de 20 árvores gigantes. Hoje nós estamos com mais, catalogamos recentemente mais três em Minas Gerais [o que eleva o número para 49 araucárias gigantes]. Então a tendência é aumentar o reconhecimento dessas árvores, mas isso vai depender muito da gente estar catalogando.
Por exemplo, se eu não tivesse catalogado essas árvores gigantes, o pessoal da Embrapa não estaria lá resgatando material genético em Cruz Machado. Não teria toda uma mídia em cima dessas grandes árvores para conservação e outras pesquisas que nós estamos realizando também de migração assistida, resgate desse material genético. Então, vai ter mais novas árvores [catalogadas], tenho certeza que a gente vai achar mais novas árvores gigantes.
Mas talvez não seja um número muito mais expressivo. Será que vão chegar a 100, passar de 100, tem 200? Se tu pensar, é muito pouco. Se pensar todo o território de ocorrência da Araucária, que vai desde a Argentina, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, é muito pouco. Com certeza a gente vai achar mais, mas talvez não seja um número tão mais expressivo do que a gente já tem registrado.
Mas é importante as pessoas encaminhem as informações e elas podem, com certeza, têm que contestar, e também que comprovar que elas têm árvores lá. Não adianta me dizer: “Aqui tem uma gigante”. Nós já temos o parâmetro para definir a gigante, agora você tem como provar. E já teve cenários também opostos que a pessoa tem uma árvore gigante, outras pessoas me falaram, mas eles não querem que eu vá lá medir por ter algum problema ambiental na propriedade ou até mesmo não querer que aquela árvore seja reconhecida e protegida, porque, às vezes, têm pretensões de um desmatamento. Então, é bastante complicado essa situação quando a gente começa a catalogar e deixar público também essas informações.
Por isso, árvores como Matusalém, uma árvore icônica com mais de 4 mil anos, que fica num parque nacional americano, é segredo de Estado, ninguém sabe onde ela está, para proteger do vandalismo.
NK – Gostaria que comentasse ainda porque essas grandes árvores são tão importantes e o que elas dizem do nosso bioma, da nossa história da Floresta Ombrófila Mista, a nossa Mata com Araucárias?
MS – Se nós encaramos esses grandes indivíduos, com certeza, são os maiores seres vivos que nós temos na Floresta de Araucária, com certeza é o ser vivo de maior porte, de maior biomassa. E com isso ele acaba tendo vários focos importantes de valoração dessa árvore. Vai desde a questão do acúmulo de CO2, dessa biomassa que ela vai acumulando ao longo dos séculos de crescimento. Então isso é importante no cenário que nós estamos vivendo de mudanças climáticas, de sequestro de carbono.
Outro aspecto dessas grandes árvores, elas servem de abrigo para diferentes formas de vida, de animais, de plantas. As epífitas são plantas que eu não imaginava encontrar, há bromélias na base de araucária. Isso é uma coisa que chama muita atenção, a gente pensa em encontrar mais na Floresta Atlântica, na Ombrófila Densa é mais comum.
Mas no Parque René Frey, uma árvore que caiu tinha uma colônia de bromélias gigantesca na base, o que você não vai encontrar nas florestas secundárias. É um indicador também da importância dessas árvores para esse cenário todo. Outro aspecto são as grandes cavidades, de diferentes tamanhos, que a fauna, até mesmo microorganismos, fungos, acabam utilizando seja para se alimentar ou se abrigar.

NK – Poderia falar mais sobre as cavernas biológicas que são frequentes nessas árvores antigas para as pessoas terem ideia do quão rico se torna esse ambiente, esse tipo de refúgio dentro das árvores; poderia dar uma ideia da biodiversidade que se abriga nesse espaço dentro de uma grande árvore?
MS – Isso é interessante, porque quando fui catalogar eu medi a cavidade interna e é impressionante, passa dos 14 metros de altura em algumas árvores. E focando a lanterna e o equipamento a laser para fazer essa mensuração da altura, encontramos morcegos. Eu não imaginava encontrar morcegos numa paisagem de Planalto, que tem poucas cavernas de origem geológica. Então, essas árvores são importantes para abrigar alguns tipos de animais que a gente não vê mais. E os morcegos são animais importantíssimos para fazer polinização, predação de insetos.
Teve um momento que eu fui numa árvore, faltou um equipamento, e tive que voltar nela, questão de um mês depois; quando eu retornei tinha uma colmeia de vespa que fechou toda a cavidade, não sei como é elas conseguiram tão rápido.
Talvez existam mais mamíferos que possam utilizá-las de abrigo. Há fungos internos que a gente consegue visualizar dentro da cavidade. Mas para saber tudo isso é preciso fazer parcerias, unir várias frentes de pesquisa.
Para dar a importância dessas árvores no contexto biológico, por exemplo, saíram agora os artigos das epífitas. Dez dessas grandes árvores concentram uma biodiversidade de epífitas maior do que em uma floresta secundária.
Ali no Parque René Frey, nós fizemos levantamento das epífitas e os revisores, os meus pares, eles não entenderam o contexto ali. Achavam que eram poucas amostras, só dez árvores para o levantamento de epífitas. Mas foi muito trabalhoso escalar essas árvores. Uma delas tinha 40 metros de altura. Imagina a coluna dela de 2 metros embaixo. E ela praticamente era cilíndrica, vários troncos laterais reiterados, como se fossem outras árvores em cima de uma árvore.
E levantamos uma quantidade de epífitas muito maior que numa outra área – que a gente ainda não publicou os resultados – aqui do campus, que é uma floresta secundária. Até o momento mostramos lá, se não me engano, foi 50 a 70 árvores, e nós chegamos ao nível de diversidade dessas 10 lá no Parque René Frey. Então veja a importância também nesse contexto das plantas, utilizando as grandes árvores nesse contexto. Elas acabam sendo um edifício, um arranha-céu da floresta, com muitos apartamentos, com vários inquilinos, diferentes inquilinos.
NK – Professor, quais são os principais riscos que essas grandes árvores enfrentam hoje? Sejam riscos antrópicos, relacionados à nossa forma de viver hoje, mas também riscos climáticos e outros que se somam no cenário atual.
MS – Além do desmatamento, que já tornou elas raras, acho que seria o risco número um, mas desde 2023, quando caiu essa maior do Paraná, o que me chamou a atenção foi que não caiu só lá, caiu aqui também em Santa Catarina, nesses eventos climáticos similares. Teve dois eventos, acho que foi em outubro e novembro de 2024, com volumes de chuvas gigantescos.
Eu estou trabalhando num artigo para nós entendermos porque caíram essas árvores, estamos calculando as forças – tem um colega que é engenheiro civil, outro que é físico, tem o engenheiro florestal, mais um colega dos solos – para entender. Mas as mudanças climáticas realmente podem ter um impacto em grande escala, nesse sentido de derrubar essas grandes árvores, principalmente com volumes extremos de chuva associada a ventos, então a gente tem esse risco aí que já está comprovado, já mostrou os resultados.
Então, faltam ilustrações da história, da colonização, da ocupação do território, da exploração. Foi um recurso econômico muito importante, mas sobrou pouca coisa para contar a história. Então, o que sobrou a gente tem que valorar, tem que conservar, talvez fazer novas políticas públicas para a conservação.

NK – E como proteger essas grandes sobreviventes, esses condomínios da biodiversidade?
MS – Nós conseguimos, pelo menos, uma política pública em Santa Catarina, de colocar dentro do novo Código Ambiental um item legislativo para desenvolver um programa de árvores históricas e monumentais do Estado de Santa Catarina.
Isso é uma coisa importante, nós temos no Código Florestal com árvores imunes, mas nós não temos políticas efetivas de fazer o inventário, catalogá-las, monitorá-las, cuidá-las, fazer o manejo delas; às vezes algumas árvores vão precisar de cuidados, de poda, adubação, às vezes, restrição de acesso, às vezes tem uma visitação muito intensa, começa a compactar o solo.
Então, falta muita coisa ainda para desenvolver dentro desse contexto. Há áreas importantes de interesse econômico, como o turismo de natureza, em que as pessoas podem visitar, pagar para visitar os parques. Um exemplo é o Sequoia Park, nos Estados Unidos, que em razão dessas grandes árvores tem mais de 2 milhões de visitantes ao ano.
Nós temos as nossas árvores, não tão grandes como àquele porte, mas nossas araucárias chamam a atenção. Tem outras espécies, como o jequitibá, na Amazônia, a descoberta dos angelins-vermelhos, que estão mobilizando políticas públicas para criar unidades de conservação em razão dessas grandes árvores. Então, a importância delas acaba até superando, às vezes, a biodiversidade, linkando o contexto histórico e econômico do turismo. Então isso é muito importante.