Iniciar um projeto de regeneração ambiental é desafiador, não existe roteiro. Na Natureza Karuna, estamos vivenciando essa realidade. Ao colocar a mão na massa, surgem inúmeras dúvidas e incertezas. Mas isso não significa que não exista conhecimento a ser absorvido.
Como a natureza nos ensina a força do coletivo, buscamos aprender com aqueles que têm mais experiência no caminho da regeneração. Conversamos com dois gestores de projetos ecológicos: Marcelo Delduque da Fazenda Serrinha, em Bragança Paulista–SP, e Leonardo Clausi do Santuário Bellatrix, em Bocaiúva do Sul–PR. Generosamente, eles compartilharam um pouco de suas experiências, que acreditamos serem valiosas para outras iniciativas.
Ambos os projetos começaram com paixão e se profissionalizaram ao longo do tempo, contando com Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs). Os proprietários são gestores, plantadores, jardineiros e educadores ambientais, envolvidos diretamente em todos os processos. Contudo, suas histórias são únicas.
Fazenda Serrinha
A Fazenda Serrinha, localizada, a menos cem quilômetros da cidade de São Paulo, é uma pioneira na regeneração ecológica. Há 25 anos, os irmãos Marcelo, jornalista na época, e Fabio, artista plástico, decidiram mudar o destino da terra que estava na família há cinco gerações. Naquela época, recuperar a natureza em vez de explorá-la parecia absurdo para muitos. “Ninguém entendia o que estávamos fazendo, nem nosso pai,” recorda Marcelo, que nesse processo se tornou paisagista e facilitador de processos de regeneração da terra.
Por muitos anos, a área de cem hectares da Fazenda Serrinha foi dedicada ao cultivo de café, pecuária e olaria. Quando os irmãos decidiram mudar a história da propriedade, incorporaram seus talentos e interesses pessoais ao projeto. Assim, aos poucos, construíram um negócio que integra restauração ecológica, educação ambiental, arte e cultura.

A receita da Fazenda vem da hospedagem de grupos para atividades como retiros, cursos e outros eventos, além de promover atividades educativas e culturais. O Festival Arte Serrinha, realizado há 22 anos, leva uma rica programação artística para a fazenda, envolvendo shows, oficinas e residências artísticas.
O tempo e a persistência foram os principais aliados da iniciativa, que se tornou uma referência em termos de projeto ambiental na região.
Santuário Bellatrix
Motivado por profundas transformações pessoais a partir da kundalini yoga e do veganismo, há sete anos, Leonardo Clausi decidiu investir em conservação. Com os recursos de uma herança, ele adquiriu uma área de 97 hectares, a apenas 45 quilômetros de Curitiba.
O atual Santuário Bellatrix, antes era uma fazenda dedicada à produção de caqui, maçã e pera, além de contar com uma grande área de mata nativa. Mas o antigo dono decidiu vendê-la depois que uma doença comprometeu toda sua a produção. A antracnose, um fungo sintomático do empobrecimento do solo, devastou o pomar.
Quando Leonardo adquiriu a fazenda, a área já estava se recuperando naturalmente, sem o uso de agrotóxicos nem adubação química. O que se seguiu foi um intenso trabalho para o controle das plantas invasoras e a recuperação do solo com adubação verde. Um manejo contínuo, que requer muito empenho até hoje.

O Santuário também hospeda eventos, focando em atividades espirituais, como cerimônias xamânicas, e de desenvolvimento pessoal, com cursos de yoga e autoconhecimento. Além disso, a casa principal, uma bela e confortável residência construída segundo os princípios da bioconstrução, possui um locatário permanente.
RPPNs
Ambos os proprietários optaram pela criação de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs). O principal objetivo deste instrumento é a proteção perpétua da área, garantindo que a biodiversidade natural seja mantida para as próximas gerações. Na Fazenda Serrinha, a opção foi por uma RPPN de 15 hectares. Já no Santuário Bellatrix são 83,58 hectares de RPPN, em 3 áreas contíguas. As decisões contemplam estratégias distintas.
Marcelo explica que, embora a área regenerada na Fazenda Serrinha seja bem mais ampla, a opção por uma RPPN menor está ligada às rígidas limitações quanto ao manejo e dificuldades para sua remuneração. Ele avalia que instrumentos como o pagamento por serviços ambientais (PSA) e créditos de carbono e de biodiversidade ainda são uma “utopia” em termos de sustentabilidade financeira. No caso da Fazenda, não foi obtido nenhum incentivo econômico para a RPPN até o momento.
Já no Santuário Bellatrix, desde o início, a prioridade foi dedicar o máximo da área disponível para a criação de RPPNs. Apesar dos pomares muito degradados, a mata nativa predominava na maior parte da área. Para Leonardo, a garantia de que as áreas sejam protegidas para o futuro justifica todo o esforço, embora a sustentabilidade econômica continue sendo um desafio. Leonardo e a família têm investido recursos próprios para manter o projeto e buscam soluções para ampliar as fontes de receita.
Zoneamento
O gestor da Serrinha sugere que o primeiro aspecto a ser definido em um projeto de regeneração ecológica seja o zoneamento da área. É preciso determinar onde serão localizadas as moradias e outras instalações necessárias e como elas podem aproveitar de forma inteligente e com menor impacto os recursos naturais. Considerar dados como topografia, luz solar, posição dos ventos e chuvas frequentes, além das sinergias com o entorno, são aspectos essenciais.
Além disso, Marcelo, hoje paisagista e facilitador de processos de regeneração da terra, orienta desenhar quais serão as áreas a serem restauradas e suas zonas críticas. Sempre observando as sinergias com as áreas vizinhas para a criação de corredores verdes, além de considerar oportunidades relacionadas a usos anteriores do território.

Fontes de renda associadas à regeneração
Uma atividade econômica viável em projetos de regeneração é a produção de mel. O Santuário Bellatrix possui criação de abelhas com e sem ferrão. As abelhas sem ferrão são fundamentais para a manutenção dos ecossistemas e beneficiam a dispersão e reprodução das plantas nativas, por isso não são exploradas comercialmente. Já as abelhas exóticas produzem mel que é extraído e comercializado, gerando uma fonte de renda para o Santuário.
Leonardo conseguiu negociar a venda de créditos de carbono para uma instituição financeira, com contrato de 5 anos, totalizando R$ 55 mil. Ele considera que o pagamento anual de R$ 11 mil é importante, embora seja pequeno frente a todos os custos envolvidos. Enquanto isso, segue em diálogo com a prefeitura para que a área de RPPN receba o ICMS ecológico.
Outra expectativa de receita está na regulamentação do Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) em Bocaiúva do Sul. Depois de muito diálogo, Leonardo conseguiu que o município encaminhasse um projeto para a Câmara de Vereadores. Com isso, ele acredita que sua área poderá receber cerca de R$ 40 mil ao ano de PSA no futuro.
Funcionários do entorno
Nos dois casos, os trabalhadores empregados são também vizinhos dos projetos. Além de Leonardo, trabalham no projeto do Santuário três funcionários, dois deles mais dedicados ao manejo e manutenção da área e um à limpeza das casas e alojamentos. Outros profissionais são contratados conforme a demanda, para trabalhos pontuais.
Já na Fazenda Serrinha, além dos irmãos, quatro funcionários atuam nas operações do dia a dia. As atividades de alimentação são realizadas por uma empresa parceira que emprega sete funcionários. Priorizar a mão de obra local é uma maneira de estabelecer bons vínculos com o entorno.
Localismo
Desde o princípio, Marcelo e o irmão buscaram cultivar relações de fortalecimento mútuo no território. A Fazenda Serrinha prioriza os produtores e comércios vizinhos, que atuam como fornecedores, além de empregar trabalhadores que moram no entorno, criando um ciclo virtuoso e um senso de benefícios compartilhados.
Além disso, existem oportunidades para que a comunidade visite o local. A Fazenda possui um lindo mirante natural frequentemente visitado pelos moradores de Bragança Paulista e, anualmente, no mês de julho, as porteiras são abertas para o Festival Arte Serrinha. Assim, a população local reconhece o impacto positivo da Fazenda e pode desfrutar do espaço em ocasiões educativas e culturais. Hoje, o projeto está consolidado e influencia positivamente o entorno. “Duas terras vizinhas aderiram a programas de restauração florestal por incentivo nosso”, conta Marcelo.
Custos de manutenção
Ambos os gestores concordam que os maiores custos estão envolvidos no manejo e manutenção dos espaços. Manter as equipes responsáveis pelo manejo e investir na manutenção e melhoria das edificações consome recursos significativos, mas indispensáveis para o sucesso dos projetos.
Beleza
Marcelo avalia que o investimento nas instalações e sua estética é fundamental para se diferenciar em um setor que vem se tornando mais competitivo. Os hóspedes e visitantes querem estar em um espaço agradável e também bonito.

Manejo e controle de plantas invasoras
Leonardo destaca a necessidade de manejo constante nas áreas em regeneração, principalmente para o controle de plantas invasoras, o que requer um trabalho intensivo duas a três vezes por ano.
Capacitação da mão de obra
O treinamento e orientação de mão de obra é importante para que o trabalho em campo não seja perdido. Nesse sentido, é uma conquista para Leonardo que seus funcionários estejam ao seu lado há muitos anos, facilitando a gestão da área.
Sistemas Agroflorestais (SAFs)
Leonardo aponta o uso de sistemas agroflorestais (SAFs) como o melhor método para regeneração ecológica. Os SAFs, usados fora das áreas de RPPN, preconizam o cultivo combinado de diversas espécies vegetais, visando a produção de biomassa para acelerar a recuperação dos solos degradados. Além disso, dependendo da estratégia, os SAFs possibilitam a produção de alimentos (frutas e vegetais) e madeira, combinados às espécies nativas, proporcionando uma fonte de receita ao projeto ou, pelo menos, a produção de itens para consumo interno.
Marcelo ressalva que embora considere os SAFs uma ótima opção, não existe método ideal para a regeneração, “mas aquele mais adequado ao local, ao momento e aos desígnios do proprietário”.
Inspiração
Marcelo e Leonardo exemplificam como paixão, dedicação e conhecimento podem transformar paisagens e gerar benefícios para as comunidades do entorno. Suas jornadas são testemunhos de que, embora existam desafios, a regeneração ambiental pode integrar negócios sustentáveis.
Com base em 25 anos de experiência acumulada e na colaboração com outros projetos de regeneração ambiental, Marcelo presta assessoria para quem também deseja trilhar este caminho.
A Natureza Karuna convida você a conhecer melhor esses projetos inspiradores e, quem sabe, agendar uma visita pelos sites:
Fazenda Serrinha (Bragança Paulista–SP)
Santuário Bellatrix (Bocaiúva do Sul–PR)
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