Uma história muito antiga
Curi para os guaranis, fag para os kaingangs, pinheiro-brasileiro, pinheiro-do-paraná ou araucária angustifolia. São muitas as formas de se referir a ela, uma árvore muito, mas muito mais antiga do que a espécie humana, inclusive, ainda mais antiga do que os dinossauros e a separação dos continentes. Surgida durante a Gondwana, quando América do Sul e África eram uma só terra, a idade estimada desta espécie de árvore é de 230 milhões de anos. No entanto, apesar de ter resistido por eras, a perpetuação da Mata de Araucárias está ameaçada.
Tecnicamente, ela é chamada de Floresta Ombrófila Mista e é uma fitofisionomia (um tipo de vegetação) da Mata Atlântica. Ao longo de milênios, com a ajuda de animais e dos antigos habitantes da região, os indígenas do grupo Macro-Jê, a Mata de Araucárias se espalhou pelo sul do Brasil. Suas condições ideias incluem altitude acima dos 500 metros até 1.200, temperaturas médias mais baixas (entre 10° e 18°C) e chuvas regulares durante todo ano.
A extensão e a importância das Matas com Araucárias

No Brasil, estas matas ocupavam originalmente uma área de mais de 200 mil km² que cobriam os planaltos sulinos, sendo a imponente araucária dominante nessa paisagem. Da área total, cerca de 40% ocorria no estado do Paraná, seguido, em menor proporção, pela ocorrência em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.
Contudo, sua presença ia além, com manchas esparsas registradas em São Paulo, alcançando até o sul de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Na capital paulista as árvores deram nome a um dos principais rios, o Rio Pinheiros. Os jesuítas assim o batizaram pela grande quantidade de araucárias que cobria a região.
Ainda há pequenos remanescentes da Mata de Araucárias na província de Missiones, na Argentina, e no departamento de Alto Paraná, no Paraguai.
A devastação da floresta
Contudo, a Floresta Ombrófila Mista já foi destruída em 97% de seu território original. Os 3% de fragmentos restantes não podem ser considerados como florestas intocadas, pois já sofreram a ação de seres humanos. A maior parte desta devastação aconteceu em apenas 50 anos.
Até o início da exploração comercial de sua madeira, na primeira metade do século XX, as matas com araucária cobriam grande parte do território que vai desde o sul de São Paulo até o norte do Rio Grande do Sul, chegando à província de Missiones, na Argentina. Mas a exploração desenfreada levou ao risco iminente de extinção e à proibição do corte, em 2001.
Impacto na biodiversidade e na cultura local
E assim como a araucária, mais espécies foram rareando. Até mesmo a erva-mate, outra árvore profundamente enraizada na cultura dos estados do sul, está ameaçada em seu ambiente de origem, o sub-bosque, a área sombreada da floresta.
O Paraná era o estado com a maior extensão destas matas, tanto que a araucária se tornou parte dos símbolos oficiais e dá nome a cidades (como Araucária, Pinhais, São José dos Pinhais), inclusive à capital. No idioma guarani, Curitiba significa “grande quantidade de pinheiros, pinheiral”. Porém, o estado foi o que mais perdeu suas matas originais, restando entre 1% a 2% da cobertura original. A perda destas matas, coloca em risco saberes e práticas culturais, além de toda biodiversidade associada.
A necessidade de regeneração
A regeneração da Mata de Araucárias é crucial para preservar essa importante parte do ecossistema brasileiro e seu patrimônio cultural. Iniciativas de conservação e replantio, como o projeto da Natureza Karuna, são essenciais para garantir que futuras gerações possam testemunhar a majestade dessas florestas e experienciar as tradições e conhecimentos a ela associados.
Imagens CC BY-SA 3.0:
- Araucaria angustifolia, in Campos do Jordão, de Adrian Michael
- Araucárias ao fundo Parque Nacional da Serra da Bocaina, de Heris Luiz Cordeiro Rocha
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